Janeiro Branco
Você sabe o que é saúde? Estamos encerrando o Janeiro Branco e eu quero falar sobre ele, mas a partir do conceito ampliado de saúde e seus determinantes sociais. Existem vários modelos de saúde e infelizmente o que predomina em nossa sociedade é o modelo biomédico que é focado no indivíduo, diagnóstico e cura.
Em contrapartida o modelo ampliado ou sistêmico considera saúde como qualidade de vida e não apenas ausência de doença e também como resultado dos determinantes sociais como: estilos de vida, água e esgoto, habitação, trabalho e suas condições, educação, lazer, meio ambiente, relações sociais e comunitárias e muitos outros.
Estes determinantes precisam ser considerados principalmente quando falamos sobre saúde mental. Quando a palavra ansiedade é eleita a palavra representativa de 2024 a questão não é apenas individual ela é coletiva, é um sintoma social.
Um exemplo do impacto de um determinante social me ocorreu há alguns dias quando conheci a comunidade dos macacos em Nova Lima. Cercado de mata atlântica, destino certo de quem quer descansar e entrar em contato com a natureza, me chamou a atenção os avisos de rota de fuga nas ruas do bairro.
Em 2019 a população local desse ambiente de paz e tranquilidade se viu atravessada pela ameaça de rompimento da barragem B3/B4 da mina mar azul da mineradora Vale que chegou ao nível máximo de emergência, mais de 100 famílias foram evacuadas da região. De 2019 a 2024 esses moradores tiveram que conviver com o medo de serem surpreendidos por um mar de lama como aconteceu em Brumadinho.
Isso é um determinante social, a moradia que é símbolo de segurança se tornou sinônimo de risco de morte, e isso impacta na saúde, física e mental. Depois de 5 anos a barragem foi finalmente descaracterizada.
Por isso quando falamos sobre saúde, seja ela física ou mental precisamos considerar os determinantes sociais, ou seja, o contexto da pessoa, sua idade, seu sexo, seu estilo de vida, onde ela mora, ela teve acesso a uma educação de qualidade, onde trabalha e suas condições de trabalho, sua renda e o que essa renda propicia a ela como qualidade de vida, ela tem redes de apoio (família, grupos, amigos, comunidade).
Cuidar da saúde mental passa pelo autocuidado pessoal como tenho postado sempre aqui, mas vai muito além, porque inclui a conscientização dos determinantes sociais, nosso engajamento como indivíduo e sociedade para melhoria desses determinantes e principalmente a aceitação da condição humana, somos sempre com o outro.
Assim, o modo como eu me percebo, me conheço, percebo o outro e me relaciono, ou seja, a forma como observo, escuto, falo ou me silencio, faço trocas, interajo com minha filha, meu marido, meus pais, meu vizinho, minha comunidade, vai impactar na minha saúde e na saúde coletiva. Para nos perguntarmos.
O que temos feito para cuidar das nossas relações? Como nos relacionamos com nós mesmos e com as pessoas que convivemos?